Empire of AI - Resenha crítica - Karen Hao
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Empire of AI - resenha crítica

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Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 9780593657508

Editora: Penguin Press

Resenha crítica

Empire of AI

Você abre o ChatGPT, digita uma pergunta e recebe uma resposta em segundos. Parece mágica limpa, eficiente, quase divina. Mas e se essa fluidez na sua tela custasse o sono de um pai de família em Nairóbi revisando descrições de abuso infantil por menos de dois dólares a hora? E se custasse a água potável de uma vila no Uruguai onde moradores agora bebem água salgada?

A jornalista Karen Hao passou anos por dentro da OpenAI, fez mais de 300 entrevistas e voltou com uma tese desconfortável: a corrida pela inteligência artificial não é uma revolução técnica neutra. É a construção de um novo império. Um império que extrai dados sem permissão, trabalho humano por migalhas e recursos naturais de territórios já fragilizados, tudo embrulhado numa retórica messiânica de salvar a humanidade.

Nos próximos minutos, você vai entrar nos bastidores dessa máquina. Vai conhecer Sam Altman não como o visionário das capas de revista, mas como o operador implacável que seus próprios executivos descreveram como mentiroso compulsivo. Vai entender por que o termo "inteligência artificial" sempre foi marketing. E vai descobrir quem realmente paga a conta quando o Vale do Silício promete o futuro.

O mito do laboratório altruísta

Tudo começou com medo. Elon Musk olhou para a DeepMind, comprada pelo Google em 2014, e enxergou ali uma ameaça existencial: uma inteligência artificial fora de controle nas mãos de uma única corporação. Sua resposta foi paranoica e cinematográfica. Investiu cinco milhões de dólares na própria DeepMind apenas para vigiar a empresa por dentro. Quando isso não bastou, fundou uma alternativa. Em 2015, nasceu a OpenAI, supostamente um laboratório sem fins lucrativos, aberto, dedicado a desenvolver IA para o benefício de toda a humanidade.

Ao lado dele estava Sam Altman, jovem presidente da Y Combinator, formado na escola de monopolização de Paul Graham e Peter Thiel. Graham havia comparado Altman a Steve Jobs aos 23 anos. Não era elogio à criatividade, era elogio à frieza para dominar mercados. Na startup anterior, a Loopt, Altman já demonstrava o padrão: centralizar informação, manipular narrativas, eliminar quem discordasse. Esse era o homem que assumiria o leme da promessa altruísta.

A contradição apareceu rápido. Para atrair talentos como Ilya Sutskever, ofereceram quase dois milhões de dólares anuais, fazendo o cientista rejeitar o Google. Aberto na fachada, hermético na prática. Quando a pesquisadora Timnit Gebru confrontou Musk perguntando por que ele se preocupava com extinção por IA mas não com mudanças climáticas reais, ela ouviu silêncio. Era o primeiro sinal de quais riscos contavam e quais seriam ignorados.

A sedução de um trilhão de dólares

Em 2019, a fachada filantrópica rachou. A OpenAI se reestruturou como "capped-profit", lucro limitado a cem vezes o investimento inicial. Cem vezes. Para um aporte de bilhões, isso significa retornos potenciais na casa das centenas de bilhões. Altman vendeu a manobra como necessária para captar capital sem perder a missão. Na prática, abriu a porta para Satya Nadella e a Microsoft entrarem com um acordo de um bilhão de dólares que mudaria tudo.

A Microsoft não comprou ações. Comprou dependência. Forneceu a infraestrutura computacional gigantesca de que a OpenAI precisaria para sempre, amarrando a empresa numa aliança visceral. A missão original virou trilha sonora de fundo. O que importava agora era escalar, consumir mais dados, alugar mais servidores.

E aqui Karen Hao puxa uma linha histórica brilhante. O próprio termo "inteligência artificial" foi cunhado em 1956 por John McCarthy como puro marketing institucional, para conseguir financiamento. Não descreve uma realidade técnica precisa, descreve uma promessa. Assim como o descaroçador de algodão de 1790 foi vendido como progresso enquanto expandia brutalmente a escravidão, a IA é vendida como modernização enquanto industrializa a extração de dados humanos em escala planetária.

A religião da escala e o primeiro cisma

Dentro da OpenAI, Ilya Sutskever se tornou o profeta de uma crença quase religiosa: inteligência é compressão. Para ele, bastava jogar dados suficientes e poder computacional suficiente num modelo simples, e a inteligência artificial geral surgiria sozinha, inevitavelmente. Essa fé virou doutrina interna. Justificou tudo.

Justificou raspar oito milhões de documentos da internet para treinar o GPT-2 sem pedir licença a ninguém. Justificou esconder o modelo do público sob o pretexto pomposo de "risco de informação", uma expressão que soava responsável mas funcionava como propaganda. Pesquisadores independentes apontaram a contradição: uma organização chamada "Open" recusando abertura justamente quando o argumento de segurança coincidia com o interesse comercial.

A pressão monopolista de Altman acelerou. Quem discordava era isolado, manipulado, posto contra outros colegas. O time de segurança ética perdeu paciência. Em 2021, Dario e Daniela Amodei lideraram o que ficou conhecido internamente como "O Divórcio", saindo com vários cientistas para fundar a Anthropic. O laboratório altruísta já não comportava sequer quem levava a ética a sério.

Capturando a ciência e roubando código

O efeito dominó atingiu a indústria inteira. Google e Meta entraram em pânico, abandonaram protocolos cuidadosos de pesquisa e correram para clonar os feitos da OpenAI. Foi nesse clima que veio o artigo "Stochastic Parrots", escrito por Timnit Gebru e colegas, alertando que grandes modelos de linguagem são essencialmente autocompletar industriais, repletos de vieses sistêmicos e com pegada climática brutal. O Google reagiu demitindo Gebru de forma coercitiva. Ciência crítica virou risco corporativo.

Enquanto silenciava pesquisadoras, a OpenAI lançava o Codex em 2021, treinado em código aberto raspado do GitHub. Programadores que doaram seu trabalho à comunidade descobriram que suas linhas viraram produto pago da Microsoft via Copilot, sem qualquer compensação. A apropriação do trabalho criativo alheio foi empacotada como inovação.

Altman, paralelamente, construía seu portfólio pessoal de salvador. Investiu 375 milhões de dólares na Helion Energy, mirando fusão nuclear. Colocou 180 milhões na Retro Biosciences, mirando longevidade. A imagem pública se consolidava: o homem que resolveria energia, morte e inteligência. A imagem desviava o olhar da extração que custeava tudo isso.

O trabalho sujo do novo capitalismo

Para o ChatGPT parecer educado, alguém precisou ler o pior da internet. Esse alguém esteve no Quênia. A OpenAI contratou a empresa Sama por 230 mil dólares para um trabalho específico: revisar conteúdos descrevendo abuso sexual infantil, tortura, violência extrema, marcando categorias para que o modelo aprendesse a não reproduzi-los. Mophat Okinyi, um dos trabalhadores, recebia menos de dois dólares por hora para absorver esse esgoto psicológico. Saiu da função com transtornos graves e a família despedaçada.

Não é caso isolado. A Scale AI usa a plataforma Remotasks para recrutar venezuelanos esmagados pela hiperinflação, filipinos, colombianos, refugiados. A lógica é o que Karen Hao chama de capitalismo de desastre: quanto mais frágil o país, mais barato o trabalhador, mais lucrativo o contrato. Depois que a plataforma captura o mercado local, os pagamentos despencam para centavos por tarefa. Não há recurso, não há sindicato, não há rosto.

Esse é o segredo industrial da IA generativa. A camada de polidez que você experimenta na tela existe porque seres humanos vulneráveis em países fraturados foram pagos uma miséria para filtrar horrores. O verniz ético do chatbot é construído sobre o trauma terceirizado.

Os catastrofistas e o despertar do monstro

Enquanto isso, no Vale do Silício, debatia-se filosoficamente o fim do mundo. O movimento do Altruísmo Eficaz capturou o núcleo de segurança em IA com uma matemática peculiar: usar valor esperado para concluir que uma chance ínfima de extinção humana no futuro distante importa mais do que danos concretos no presente. Era a teoria perfeita para a indústria. Enquanto congressistas discutiam robôs assassinos hipotéticos, ninguém legislava sobre roubo de direitos autorais, vieses raciais ou demissões reais em curso.

Esse era o ponto. A histeria existencial funcionou como cortina de fumaça. Empresas como a OpenAI até patrocinaram esse discurso, porque ele blindava o presente regulatório. Os "doomers" preocupados com apocalipse forneciam, sem perceber, o selo de "alinhamento ético" que o marketing precisava para empurrar produtos nocivos imediatos. Quanto mais se falava em deuses e demônios digitais, menos se falava em GitHub roubado e quenianos traumatizados.

Foi nesse caldeirão que o ChatGPT foi lançado em novembro de 2022, durante a conferência NeurIPS, sob a falsa premissa de ser apenas um "preview de pesquisa". Cem milhões de usuários em dois meses. A infraestrutura da Microsoft entrou em colapso. Sutskever, cada vez mais messiânico, chegou a queimar uma efígie de madeira em um retiro no Tenaya Lodge, ritualizando o nascimento da máquina. A empresa havia perdido o controle do próprio sistema, e celebrava.

Terra saqueada e o lobby em Washington

A fome da IA por eletricidade e refrigeração migrou a infraestrutura para mega campi gigantescos. E esses campi foram parar exatamente onde havia menos resistência política e mais recursos baratos. No Chile, o data center do Google em Cerrillos planejava consumir 169 litros de água potável por segundo, em pleno deserto do Atacama, região já castigada por megas seca. No Uruguai, a crise hídrica provocada por demanda industrial forçou moradores a beberem água salgada da torneira.

Ativistas latino-americanos perceberam o padrão. Era o mesmo neocolonialismo da mineração de cobre e lítio, só que digital. Promessas de progresso, contratos opacos, comunidades indígenas sem voz no processo, lucros enviados para o Norte. A diferença é que dessa vez o produto exportado é abstrato: tokens, parâmetros, vetores. Mas o buraco no solo e o rio seco são bem concretos.

Em Washington, Altman montou o teatro perfeito. Apareceu no Senado pedindo regulação. Soou responsável. Mas o que ele propunha eram licenças exclusivas para "modelos de fronteira", com limites arbitrários como 10^26 operações de ponto flutuante, justamente o teto que apenas três ou quatro empresas conseguem ultrapassar. Pediu regulação que sufocaria a concorrência menor e consolidaria seu monopólio. Usou o fantasma da China como argumento patriótico. Congressistas hipnotizados aplaudiram seu "Oppenheimer moderno".

A máscara cai no conselho

Em paralelo à imagem pública impecável, denúncias se acumulavam. Annie Altman, irmã de Sam, publicou no Twitter alegações virais e devastadoras sobre abusos sexuais, físicos e emocionais sofridos na infância. Enquanto o irmão prometia renda universal para salvar a humanidade da pobreza, ela recorria ao trabalho sexual para sobreviver e era bloqueada por algoritmos enviesados em plataformas. A duplicidade não estava só na empresa, estava na própria biografia.

Dentro da OpenAI, executivas começaram a coletar evidências. Mira Murati, então CTO, confessou à conselheira independente Helen Toner que Altman era manipulador e mentiroso compulsivo, semeando histórias conflitantes entre líderes para enfraquecê-los. Surgiu também a descoberta explosiva: o OpenAI Startup Fund, fundo bilionário que investia em empresas alinhadas ao ecossistema da OpenAI, estava registrado pessoalmente em nome de Sam Altman. Nenhuma menção ao conselho. Nenhuma transparência. O CEO da organização supostamente sem fins lucrativos tinha um fundo de investimentos próprio operando nas sombras da missão.

Sutskever, abalado, sugeriu confidencialmente que Murati substituísse Altman como CEO. O conselho independente percebeu que toda a arquitetura de governança, criada justamente para proteger a missão filantrópica do "AI Alignment", estava sendo sabotada de dentro. Em 17 de novembro de 2023, decidiram agir.

O motim dos bilhões

Eles demitiram Altman numa sexta-feira. Não duraram um fim de semana. A comunicação do conselho foi vaga, mencionou "falta de candura" sem detalhar as acusações específicas. Esse vácuo virou munição. A Microsoft, sob Satya Nadella, mobilizou pressão imediata para preservar bilhões investidos. Funcionários da OpenAI, com pacotes de ações avaliadas em milhões de dólares na iminência de evaporar, organizaram um motim em massa. Mais de 700 ameaçaram migrar para a Microsoft.

A ética não venceu a planilha. Sutskever, sob colapso emocional, voltou atrás e pediu desculpas publicamente. O conselho independente desmoronou. Em cinco dias, Altman voltou triunfante, agora com um novo conselho mais favorável.

A retaliação foi metódica. Jan Leike, Daniel Kokotajlo e o próprio Sutskever saíram nos meses seguintes. Veio à tona o escândalo dos acordos de silêncio: ex-funcionários precisavam assinar NDAs sob ameaça de perderem suas ações conquistadas. Daniel Kokotajlo recusou e abriu mão de 1,7 milhão de dólares para poder falar. Pouco depois, a empresa lançou o GPT-4o usando uma voz suspeitamente parecida com a de Scarlett Johansson, depois de a atriz ter recusado o convite oficial. Jakub Pachocki foi promovido como recompensa pela lealdade, ocupando o lugar científico antes de Sutskever.

A arquitetura final e o que resta de esperança

Em 2024, a OpenAI fechou rodada histórica de 6,6 bilhões de dólares e iniciou a transição definitiva para corporação tradicional com fins lucrativos. Altman, que certa vez expressou admiração pelas táticas imperiais de Napoleão Bonaparte, oficializou sua fórmula: fé corporativa cega, eliminação de controles independentes, captura incansável de dados, terra e talento. A máscara filantrópica caiu por completo.

Mas Karen Hao não fecha o microbook no escuro. Aponta para a Nova Zelândia, onde a Te Hiku Media, liderada por desenvolvedores Māori, criou inteligência artificial para salvar seu idioma, usando dados pequenos e consensuais, infraestrutura modesta própria e retenção comunitária total do valor gerado. Aponta para o Instituto DAIR, fundado por Timnit Gebru depois da demissão no Google, financiando pesquisas ativistas com remuneração justa de 25 euros por hora.

São contrapontos vivos. Provam que outra IA é possível, desde que o poder volte para mãos coletivas.

O preço cobrado nas periferias

A IA do Vale do Silício não é destino, é escolha. Recusar sua retórica salvacionista exige enxergar que cada resposta fluida na sua tela foi paga por um rio chileno, um trabalhador queniano, um programador não creditado. Soberania de dados, transparência radical e pesquisa independente não são luxos éticos. São o que separa tecnologia que liberta de tecnologia que coloniza.

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Quem escreveu o livro?

Karen Hao é jornalista de tecnologia especializada em inteligência artificial e 'colonialismo da IA' há sete anos. Cobriu a OpenAI para o MIT Technology Review por dois anos antes do lançamento do ChatGPT. Seu livro 'Empire of AI: Dreams and Nightmares in Sam Altman's OpenAI', pu... (Leia mais)

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